Misturinha



Assim como Evilásio e Júlia em ‘Duas Caras’, casais superam o preconceito e provam que o amor não tem cor


Fabio Dobbs

Rio – Em ‘Duas Caras’, Evilásio (Lázaro Ramos) e Júlia (Debora
Falabella) enfrentam o preconceito racial para viver seu amor. O
relacionamento interracial já começa polêmico pelo próprio nome. “Não vejo cor. Quem tem raça é cachorro, ser humano tem é etnia.

Nossa
raça é a raça humana. Tenho um filho que é fruto de uma miscigenação, a
mãe é loura. Minha namorada atual também é branca, mas já namorei
negras. O que importa é nós nos amarmos”, define o ator André Ramiro,
que em ‘Tropa de Elite’ viveu, na pele de Matias, relacionamento
semelhante com Maria (Fernanda Machado).


A cor da pele também
não contou quando a atriz Michelly Campos, a Peruca de ‘Luz do Sol’,
bateu os olhos no personal trainer Sandro Abreu. Eles já estão juntos
há quase cinco anos e ainda escutam piadinhas dos
amigos.
“Eles falam que nossos filhos vão nascer de cabelinho enrolado”, diz
Sandro. “Eu quero que nasça de olho verde iguais aos dele”, acrescenta
Michelly.


No caso dos dois, o preconceito, muitas vezes
disfarçado, também acontece na família de Michelly. “Minhas primas só
namoram negros e implicam comigo porque meu namorado é muito branco”,
conta a atriz. Quando estão juntos, passeando num shopping, os dois
atraem olhares. “Não sei se olham porque sou muito alto e ela baixa —
ele tem 1,90m e ela 1,64m —, porque ela é atriz e a reconhecem, ou
porque sou branco e ela negra”, analisa Sandro.


“A paixão não
tem cor. Sou a favor da mistura”, acredita o ator Nill Marcondes. Há 4
meses namorando a atriz Maria Possi, Nill já teve um relacionamento de
três anos, em que nunca conheceu os pais da moça. “Era difícil para o
pai dela digerir o namoro. Para mim, não importava. Gostava era da
filha dele”, afirma.


Fora do Brasil, a top Heidi Klum e o cantor
Seal, que já estão no seu segundo filho, são prova de que o amor
misturado tem charme em dobro: o casal causa.


SEM BONS PAPÉIS NA TV

O
preconceito não está apenas no relacionamento. “O maior preconceito que
sofri foi na TV. Os papéis para negros têm que ser específicos. Às
vezes, não entro porque não sou negra o suficiente ou porque não tenho
cabelo liso para ser morena”, diz Michelly Campos.

Nill Marcondes
também sofreu preconceito no início da carreira de modelo. “Diziam que
eu tinha cara de gari. Ficava me perguntando que cara era essa. Hoje os
que não tinham cara de gari não estão nem trabalhando e eu estou aqui.
Vou ser Madame Satã no teatro”, orgulha-se o ator.


QUESTÃO DE MELANINA

“Pai,
fiquei pretinha e minha mãe ficou igual a camarão”. Foi assim, na
praia, que surgiu a primeira questão racial de Sacha, filha do ator
Nill Marcondes com a ex-mulher, Telma.


“Tive que explicar para
ela o que era melanina e que a pele dela tinha mais melanina do que a
da mãe”, conta Nill. Hoje, aos 12 anos, a menina mora em Curitiba e já
teve que levar o pai à escola para que os amiguinhos acreditassem que
ela tinha um pai ator e negro. “Isso não é problema na minha família”,
diz Nill.