JORNAL DO PROJETO PEDAGÓGICO

Trabalhando com os alunos: Subsídios e Sugestões

O Ensino de Língua Portuguesa nas Escolas
"Os indivíduos não recebem a língua pronta para ser usada;
penetram na corrente da comunicação verbal, ou melhor, somente
quando mergulham nessa corrente é que sua consciência desperta e
começa a operar…Os sujeitos não adquirem a língua materna,
é nela e por meio dela que ocorre o primeiro despertar da consciência."
Baktin

Muito se tem escrito sobre as deficiências do ensino da Língua Portuguesa e do excesso de erros cometidos pelas crianças, sobretudo das escolas públicas. As crianças das classes populares têm pouco contato com a linguagem culta, pois aquilo que lhes poderia facilitar o acesso a esse registro – os meios de comunicação de massa- estão eivados de galicismos e outros " rapinismos" lingüísticos…
O aluno é bem capaz de estacionar em uma escola por mais de oito anos e sair para a luta no mundo do trabalho com ao mesmo registro lingüístico com o qual chegou a ela e, o que é pior, muitas dessas crianças saem dessa escola mudas, enquanto espontaneidade e originalidade de linguagem.
Qual a origem de mais esse problema de um ensino, que não atende aos interesses da comunidade? Que faz o aluno distanciar-se da escola, que não o prepara para a vida e o inibe frente às muralhas sociais a transpor?
Pobre do estabelecimento e do professor que acreditar que a linguagem, com a qual a criança chega à escola, não tem criatividade, não tem poder de comunicação e tem que ser mudada. Pior ainda é aquele professor, que nem chega a perceber que essa criança domina uma linguagem inadequada para todos os momentos e locais do mundo altamente globalizado!

"É na linguagem, pela linguagem, que o homem se constitui como sujeito; porque só a linguagem fundamentada na realidade, na sua realidade, que o ser realiza o conceito de ego".
E. Beneviste
Eglê Franchi, não raras vezes, apontou que a escola contribui para a regressão da criatividade da criança, sobretudo das classes desfavorecidas ao apontar o registro lingüístico com o qual o aluno chega à escola como vulgar e incorreto. Assim, tudo que o menino fala (e não corresponde à linguagem culta), é apontado como erro e estigmatizado pelo mestre. Caberá à escolas saber trabalhar a partir desse material e não penitenciar o aluno, até mesmo fazendo-o passar de ano sem trabalhar falsas hipóteses. Como ilustração, destacamos um texto de aluno de 5ª série, publicado no "Estado de São Paulo", em 1º/10/00: "…um mínino este dias sem quere porque o otro empurou ele ele esbarou no outro muleque ele já foi pra sima dele ai ele chingou o muleque".
A imposição da norma culta, pura e simplesmente, como única forma de comunicação, rompe o sistema lingüístico da criança, o que também é uma forma de violência das escolas. Nega-se a linguagem da criança e condena-a ao mutismo e ela, certamente, interiorizará a idéia, totalmente preconceituosa, de que já que não sabe falar tem que permanecer muda frente a quem parece saber e abaixar a cabeça, sempre, aos poderosos!
Há que se tomar muito cuidado quanto à artificialidade das situações de linguagem na escola e à prática pedagógica de caráter acentuadamente corretivo.
A Língua Portuguesa não é somente a variação culta, assim como o latim não o foi. A língua permite os mais diversos registros, que o falante deve ser capaz de dominar diante de cada situação de comunicação em que se encontrar e diante do falante com o qual deve interagir. Se a linguagem com a qual a criança chega à escola não é a desejada pelo professor , por outro ,com ela, o pai do aluno é capaz de brigar por um lugar no SUS, por seus direitos trabalhistas, solicitar água e luz em seu barraco. Contudo, se essa criança sair da escola apenas dominando o registro culto, como ficará sua interação com a família e colegas?
"Eu estava curiosa para saber o que ela pensava dos homens, das mulheres e da vida em geral, mas como ela era uma pessoa sem instrução , não consegui obter as respostas que desejava". (g.n.)
p. 150, in Princesa
Não se arrepiem os puristas que não estamos fazendo aqui a apologia de registro lingüístico algum. Todos os registros são valiosos, se aplicados à situação de comunicação do momento. Entretanto, há que se ressaltar que a pessoa vale o quanto pesa a linguagem dominada pelo grupo em que vive e que a linguagem verbal não é o único meio eficaz de comunicação. O que não se pode é reprimir e agredir a linguagem familiar e socialmente utilizada pela criança, atitude essa, que não a levará ao desenvolvimento da competência comunicativa, mas à perda da linguagem.
Segundo o professor Carlos Franchi "limitar a capacidade do exercício da linguagem é limitar a capacidade desse trabalho individual e social: o regresso na linguagem é o regresso em todas as áreas do conhecimento…"
A maneira como utilizamos a linguagem está ligada ao modo pelo qual entendemos as classes sociais e nela interagimos. Na verdade, a sala de aula é um espaço adequado para o exercício da linguagem. Com efeito, assim como não podemos ir à praia de terno e gravata ou não é de bom gosto ir a um casamento, às 20 horas, de jeans e camiseta, cabe à escola dar aos alunos os instrumentos e colocá-los em situações de comunicação, que lhes permita o uso das diversos registros lingüísticos
Essa prática é sugerida por Vygotsky, quando diz que a possibilidade de comunicação não é somente o resultado de um trabalho social, uma herança adquirida passivamente, mas algo que se adquire em ambiente de rica interação social.
Utilizando métodos pedagógicos adequados, o aluno será capaz de se comunicar nas diversas situações de interlocução. Há que se promover exercícios lingüisticos, procurando evitar a estigmatização da linguagem das crianças, estimulando a produção de textos que objetivam, segundo Franchi, a reforçar a sensibilidade para diferentes usos da linguagem, conscientizando da existência de variados registros lingüísticos e do seu prestígio social relativo; levar à compreensão do fato de que os usos da linguagem são regidos por convenções; mostrar que o registro-padrão é uma variação lingüistica socialmente prestigiada, mas equivalente ao dialeto trazido pela criança, enquanto expressividade e poder de comunicação e conduzir, através da prática, à compreensão de que o melhor falante é aquele capaz de se adaptar a cada uma das situações de comunicação; levar o aluno a observar a oposição entre o padrão culto e o popular, possibilitando à classe produzir textos nos diferentes registros lingüísticos.
Indicamos, abaixo, alguns exercícios, para serem realizados com os alunos para a compreensão do valor dos registros lingüisticos e chegar ao domínio do dialeto culto padrão, sem que seja necessária a exclusão de seu próprio dialeto.
Essa conscientização e o domínio dos diferentes registros lingüísticos têm o poder de desinibir o aluno- cidadão e levá-lo ao respeito das diferenças.
Agora, atenção: respeitar a linguagem do aluno não significa, de modo algum, deixá-lo dominar apenas o registro de sua comunidade, com o qual ele chegou, como falante, à escola. Não se pode privar o aluno do acesso aos diferentes registros lingüísticos, pois nenhum é menos expressivo que o outro. O que o aluno deve compreender é que existem diferentes situações de comunicação e que ele sairá muito melhor se souber se adaptar a elas. Desse modo, fica claro que a linguagem culta deverá ser, inegavelmente, de domínio dos professores, pois a escola é um dos raros locais, no qual o aluno ainda poderá ouvi-la, exercitá-la e apoderar-se dela, para ser capaz de utilizá-la nos devidos momentos
E não vão sair por aí dizendo que os aconselhei a ir ao Pólo Norte de biquíni, mas o cidadão deverá saber analisar a ocasião e procurar a melhor forma de se adaptar a ela, para que não seja marginalizado ou ignorado.
A escola deverá motivar o aluno a querer aprender o padrão culto por seus benefícios e não o enfiar goela abaixo, o que certamente traria seriíssimas conseqüências.

PARTE II

Colocamos, abaixo, uma sugestão de aula prática a ser aplicada no início do ano, em classes do Ciclo II ou do Ensino Médio. Como sugestão que é, aceita toda a adaptação, que o docente fizer diante de sua realidade, e, até mesmo, para aplicação em classes iniciais.

Objetivo geral: levar os alunos a concluir que o aprendizado da língua-padrão é essencial para a comunicação do cidadão.

Objetivos específicos:
¨ cada aluno já chega à escola dominando uma forma de comunicação e expressão
¨ esse registro não é único
¨ valores de cada registro
¨ diante da enormidade das situações, dominar, conscientemente, o maior números de registros lingüísticos
¨ a linguagem culta é importantíssima e precisamos dominá-la e utilizá-la em situação em que nosso interlocutor a usa
¨ cabe aos professores, em geral, o uso e o domínio da linguagem culta, como registro próprio para a sala de aula
¨ também, os alunos deverão se conscientizar de que a linguagem culta é apropriada para ser usada em sala de aula.

Meta: levar os alunos à motivação para o aprendizado e domínio da linguagem culta e a comunidade para a essencialidade de seu uso nas salas de aula.

Material necessário: cartolina, papel, canetas coloridas, dicionários, elementos de caracterização de personagens.

Sobre o trabalho teórico, que deverá preceder e embasar essa prática (Parte I), cada docente, certamente, saberá a melhor forma de fazê-lo.
Para essa prática, o professor deverá dividir a classe em grupos e planejar, com cuidado, cada passo a ser realizado.
Ação 1: A classe é dividida em grupos de trabalho, a fim de trabalhar um texto em registro indicado pelo professor. O grupo todo deverá fazer as pesquisas e elaborar o texto, embora a dramatização deva ser feita por apenas dois interlocutores.

Grupo 1: jovens pertencentes a um grupo "rap" de
um morro carioca
Grupo 2: médicos ortopedistas
Grupo 3: freirinhas de um convento tradicional
Grupo 4: ladras condenadas, revoltadas e sem
escolaridade
Grupo 5: professores de Língua Portuguesa
Grupo 6: duas crianças de até 4 anos
Outros grupos: estrangeiros, mãe e filho; militares; travestis; sulistas e nordestinos; jovens do século XVI. Obs: tomar os devidos cuidados para não gerar preconceitos. Até será possível usar a situação para discutí-los.

Ação 2: uma vez divididos os grupos, cada um deles terá um prazo para pesquisar o registro próprio dos falantes, produzir um texto, criar cenários e vestimentas para o dia da dramatização. Fará, também, um cartão indicando o grupo. Ex: PROFESSORES DE PORTUGUÊS, FREIRAS, etc..

Ação 3: durante o processo, o professor dará assessoria aos grupos, indicando-lhes material e acompanhando a redação de cada um deles.
Ex: grupo de MÉDICOS ORTOPEDISTAS será orientado a procurar um profissional da área para subsidiar a composição do texto. O dicionário também deverá ser recomendado para a busca de sinônimos científicos para: pisão, esmagamento ósseo, mancha arroxeada, nome dos dedos, formas de tratamento, etc…
Agora, um desses médicos reconstruiria o texto ao falar com o seu motorista.

– Desculpe-me, caro colega, mas pisei a falange medial de seu pododáctilo!
– Espero não ter ocorrido esmagamento ósseo, pois vejo uma mancha arroxeada e violácea e creio ter havido ruptura cartilágena ou uma ossifluência, o que produzirá uma ostealgia ou osteíto, em breve.
– Se o colega me permite, prescreverei um antiflogístico.

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Texto (registro de médico ortopedista) realizado por alunos da
EE "Prof. Antonio Firmino de Proença" – Zona Leste – São Paulo
Ação 4: apresentação dos grupos. Nessa fase, a criatividade do professor e seus objetivos deverão se fazer presentes.
Ex: o professor diz que os grupos iniciarão a apresentação pelo textos das duas freirinhas, já caracterizadas e que trarão, em mãos, o texto a ser lido. Entretanto, para atingir seu objetivo, o professor já terá combinado, prévia e secretamente, com o grupo das religiosas, que o texto delas seria trocado pelo das ladras (você já pode imaginar o susto e as gargalhadas). Com o cenário religioso, as roupas de freiras e um registro próprio das ladras, embora dentro de uma comicidade, os alunos refletirão sobre o uso ideal de cada registro, em cada situação de comunicação, concluindo pela inadequação da linguagem usada.

Ação 5: o professor poderá fazer questionamentos como:
¨ Seria uma linguagem própria a ser usada pelo grupo de freiras?
¨ No caso das ladras, poderiam elas utilizar a linguagem dos conventos?

Ação 6: o professor poderá solicitar, em seguida, que cada grupo se apresente com seu próprio texto e, no meio da apresentação, fazer outra troca-surpresa.
Ex:
¨ os professores de português usando a linguagem dos meninos do morro.
¨ os estivadores usando a linguagem dos travestis.

Ação 7: sugerimos trabalhos complementares, como:

1. Um aluno vai ser entrevistado como candidato a um emprego pelo diretor de uma empresa.
¨ como deverá estar vestido?
¨ como comportar-se?
¨ qual registro utilizar? etc….

2. Dois jovens jogam futebol no campo e um deles briga, usando a linguagem culta (risos e reflexões).

Todas as etapas do trabalho deverão gerar reflexões, anotadas pela classe e que constituirão a conclusão dos trabalhos, a ser entregue como produção de cada grupo.

Esse trabalho foi experimentado por alunos da 3ª série do Cefam de Votuporanga, no ano 2.000. A coordenadora e a professora de Língua Portuguesa propuseram que os alunos pesquisassem os diversos registros lingüísticos a fim de usá-los em dramatização, a exemplo das sugestões apresentadas pelo Jornal do Projeto Pedagógico da UDEMO. O trabalho foi muito proveitoso, sendo, inclusive, assistido pelo presidente da UDEMO, que assistiu a cenas dialogadas de "consultório médico, de um telejornal, na casa da vovó e de uma prisão. Parabéns às futuras professoras do Cefam "Prof. João Batista Budim Filho" e aos docentes que entenderam a proposta e a transformaram em ação.

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Mariana Guimarães Zimmermann